Cidade das Guirlandas: quando um símbolo vira identidade econômica

Em Guaramirim, a guirlanda deixou de ser apenas enfeite de porta e passou a representar acolhimento, pertencimento, decoração urbana e oportunidade para artesãos, comércio e turismo local

Guaramirim (SC) — Em muitas casas, a guirlanda aparece na porta como sinal de boas-vindas. Em Guaramirim, no Vale do Itapocu, esse gesto simples ganhou dimensão coletiva: virou símbolo urbano, projeto de desenvolvimento econômico e marca de identidade para a cidade.

O projeto Cidade das Guirlandas nasceu com a proposta de unir decoração, turismo, comércio e participação comunitária. A iniciativa foi lançada em 2017 por meio de uma parceria entre Prefeitura Municipal, Câmara de Vereadores, ACIAG e CDL, com a intenção de desenvolver ações permanentes para atrair visitantes e melhorar a qualidade de vida dos moradores.

A ideia parte de um elemento conhecido, mas cheio de significados. A guirlanda é tradicionalmente associada à união, acolhida, prosperidade, paz, harmonia e boas energias. Colocada em portas de casas e estabelecimentos, ela simboliza recepção, proteção e desejo de boas-vindas a quem chega.

Em Guaramirim, esse símbolo ultrapassou o uso doméstico. A proposta foi levar as guirlandas para postes, praças, empresas, comércios, prédios públicos e residências, criando uma identidade visual compartilhada entre poder público, empreendedores e população. A intenção, desde o início, foi que a guirlanda não ficasse restrita ao Natal, mas pudesse ser adaptada para diferentes datas comemorativas ao longo do ano.

Com isso, a cidade passou a enxergar a decoração como estratégia de pertencimento. Quando uma rua, uma vitrine, uma escola, uma praça ou uma casa recebe uma guirlanda, o espaço passa a dialogar com uma identidade comum. A cidade se reconhece em um mesmo símbolo, e esse símbolo ajuda a contar uma história: Guaramirim quer ser lembrada como lugar que acolhe, celebra e valoriza sua comunidade.

O reconhecimento oficial veio em 2018, quando Guaramirim recebeu o nome de Cidade das Guirlandas, segundo o portal Visite Guaramirim. O projeto tem como objetivo decorar a cidade em datas especiais, como Páscoa e Natal, atrair turistas, estimular o consumo de produtos e serviços locais, gerar trabalho e renda e contribuir para o desenvolvimento econômico, social e cultural.

É nesse ponto que a guirlanda deixa de ser apenas ornamento. Ela passa a funcionar como ponte entre cultura e economia criativa. Artesãos podem produzir peças temáticas; floriculturas, lojas de decoração e pequenos empreendedores podem oferecer versões personalizadas; o comércio pode transformar vitrines em pontos de visitação; e o turismo pode incorporar a marca da cidade em roteiros, eventos e experiências.

A força do projeto está justamente na simplicidade. A guirlanda é um objeto acessível, reconhecível e adaptável. Pode ser feita com flores, folhagens, fitas, madeira, tecidos, sementes, fibras naturais, materiais recicláveis ou elementos ligados à identidade local. Pode representar o Natal, a Páscoa, o Dia das Mães, o Dia dos Namorados, o Dia dos Pais, a primavera, a colheita, a cultura regional ou o aniversário da cidade.

Essa versatilidade cria oportunidades para uma cadeia produtiva local. Um artesão pode confeccionar peças exclusivas. Uma costureira pode trabalhar com laços e tecidos. Uma floricultura pode desenvolver guirlandas vivas. Uma loja pode vender kits decorativos. Um restaurante pode decorar o ambiente para atrair visitantes. Uma escola pode envolver alunos em oficinas. Uma associação pode organizar feiras e exposições.

O próprio conceito de guirlandas vivas, citado no material de turismo municipal, amplia essa ideia ao propor estruturas fixadas ao solo com plantas trepadeiras moldadas em aro, dando aspecto natural e permanente ao símbolo durante todo o ano.

Para o comércio, a identidade visual pode funcionar como convite. Ruas decoradas geram circulação, fotos, memória afetiva e maior permanência das pessoas nos espaços públicos. Em datas comemorativas, uma cidade visualmente preparada tende a fortalecer a experiência do visitante e do morador, especialmente quando a decoração se conecta a feiras, apresentações culturais, gastronomia e promoções locais.

Para o turismo, a guirlanda pode ser um diferencial de marca. Em um cenário em que muitas cidades disputam atenção por meio de belezas naturais, festas e gastronomia, Guaramirim aposta em um símbolo de acolhimento. A proposta não é apenas mostrar um lugar bonito, mas comunicar uma sensação: quem chega é bem-vindo.

Também há um valor social importante. Projetos desse tipo podem aproximar moradores, empresas, escolas, entidades e poder público. A decoração urbana, quando construída coletivamente, deixa de ser apenas intervenção estética e se torna prática de cidadania. Cada guirlanda instalada ajuda a reforçar a ideia de que a cidade é feita por muitas mãos.

O desafio, daqui para frente, é transformar o símbolo em política continuada de economia criativa. Isso passa por capacitação de artesãos, criação de feiras temáticas, incentivo a produtos com identidade local, roteiros fotográficos, concursos de vitrines, oficinas comunitárias, decoração permanente em pontos turísticos e integração com hotéis, restaurantes e comércio.

Guaramirim já possui o elemento mais difícil: uma marca simples, afetiva e reconhecível. A guirlanda, por seu formato circular, remete a ciclo, continuidade e união. Como projeto de cidade, ela pode representar exatamente isso: uma economia que gira dentro do próprio município, valoriza quem produz, atrai quem visita e fortalece quem vive ali.

Mais do que enfeitar portas, a Cidade das Guirlandas mostra que símbolos também geram pertencimento. E quando pertencimento encontra criatividade, comércio e turismo, a identidade cultural pode se transformar em desenvolvimento local.